Quando o corpo fala (e a palavra ainda não chegou)

Quando a palavra falha, o sintoma pode tornar-se linguagem. Não metáfora poética, mas realidade psíquica: aquilo que não encontrou forma de expressão simbólica pode surgir sob a forma de dor, doença ou disfunção. O corpo torna-se porta-voz de afetos reprimidos, de experiências não simbolizadas, de traumas sem nome.

Que lugar ocupa o corpo na clínica?

Às vezes, chega primeiro do que a história.
Antes da narrativa organizada, antes das explicações coerentes, antes até da consciência saber o que sente — o corpo acusa. Dores persistentes, fadiga inexplicável, perturbações funcionais, mal-estares difusos. O sofrimento é real.

Na clínica, o corpo nunca é um figurante. É um protagonista, por vezes silencioso.

Quando a palavra falha, o sintoma pode tornar-se linguagem. Não metáfora poética, mas realidade psíquica: aquilo que não encontrou forma de expressão simbólica pode surgir sob a forma de dor, doença ou disfunção. O corpo torna-se porta-voz de afetos reprimidos, de experiências não simbolizadas, de traumas sem nome.

Não se trata de opor o “físico” ao “psíquico”. Essa divisão é ilusória. O acolhimento psicossomático convida-nos a pensar a relação — a íntima e indissociável comunicação entre corpo e mente. O invisível inscreve-se no corpo. E o corpo, por vezes, torna visível o que ainda não pode ser pensado.

Freud descreveu a conversão como transformação de conflito psíquico em sintoma corporal. A psicossomática contemporânea ampliou esta perspetiva, sublinhando as falhas de simbolização: experiências emocionais que excedem a capacidade psíquica de elaboração e permanecem como estados brutos, não mentalizados.

Quando o afeto não encontra representação, não desaparece. Procura outro caminho.

O sintoma pode ser essa via alternativa.
Uma memória sem palavras inscrita na pele.

Há dores que não são apenas orgânicas nem apenas psicológicas — são experiências que ainda não puderam ser transformadas em pensamento. Quando não se pode pensar, sente-se no corpo.

Mas a relação é bidirecional. A psicossomática não reduz a doença a causa emocional, nem psicologiza indiscriminadamente o sofrimento físico. Pelo contrário, convida-nos a reconhecer que toda a experiência humana é psicofisiológica.

A emoção tem um substrato corporal. O medo acelera o coração. A ansiedade altera a respiração. O stress prolongado modula sistemas hormonais e imunitários.

O inverso também é verdade: a doença reorganiza a vida psíquica. Um diagnóstico não é apenas um dado clínico — é uma experiência identitária. Toca a autoimagem, convoca medos, desperta fantasias de fragilidade ou finitude.

Talvez por isso a pergunta “todas as doenças são psicossomáticas?” precise de ser pensada. Não no sentido de procurar causalidades simplistas, mas de reconhecer que toda a doença é vivida psicossomaticamente. A saúde também. A saúde pode ser, em parte, essa conversa possível entre corpo e mente — essa capacidade de integrar sensação, emoção e pensamento.

O desenvolvimento humano começa no corpo. Antes de haver linguagem, há sensação. Antes de haver conceito, há ritmo, toque, regulação partilhada. A emoção é primordialmente um fenómeno corporal que, na presença de um outro disponível, vai ganhando nome, contorno e significado.

Quando essa mediação falha — por adversidade precoce, trauma relacional ou ausência de espelhamento — o afeto pode permanecer sem tradução simbólica. Não foi acolhido, não foi pensado, não foi devolvido de forma metabolizável. Permanece bruto.

E o corpo pode tornar-se arquivo.

Há corpos que guardam histórias que ninguém escutou.
Há sintomas que são tentativas de organização de um caos interno.
O trauma nem sempre é reconhecível. Às vezes dói. A vivência emocional que não pôde ser expressa encontra um veículo sensorial. O corpo torna-se o lugar onde o indizível ganha forma.

Qual é, então, o papel da psicoterapia?

Não é convencer alguém de que “é psicológico”.
Não é desautorizar a dor.
Não é substituir o médico.

É, antes de mais, validar. A dor é real. O sofrimento é legítimo. Muitas vezes, quem chega à consulta com sintomas somáticos traz consigo a marca da invalidação — exames médicos normais que parecem insinuar que nada se passa. Mas passa-se. E muito.

A aliança terapêutica é um lugar de reconhecimento. Um espaço onde o sintoma deixa de estar sozinho.

A partir daí, abre-se a possibilidade de ligação. Não de causalidade simplista (“está assim porque…”), mas de exploração sensível das correlações entre estados emocionais e manifestações corporais. De construção gradual de sentido. De transformação da sensação difusa em experiência pensável.

Pensar a psicossomática em psicoterapia é abrir espaço para escutar o que ainda não pode ser dito. É favorecer a simbolização do que foi vivido apenas como descarga fisiológica. É ajudar a que o corpo não precise de gritar para ser ouvido.

Dar palavra não elimina magicamente a dor. Mas pode transformá-la. Pode deslocá-la de pura descarga para experiência integrada. Devolver a possibilidade de se reconhecer naquilo que sente.

Que horizontes clínicos se abrem quando reconhecemos a dimensão psicossomática do sofrimento?

Abre-se um horizonte de integração.
Abre-se a possibilidade de pensar o corpo não como inimigo, mas como mensageiro.
Abre-se um espaço onde mente e corpo deixam de disputar legitimidade e passam a dialogar – entre o músculo tenso e a memória esquecida, há uma história à espera de ser escutada.